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Lore
Implemento de Curiosidade
A situação só ficou interessante após o primeiro pedido de desculpas.
Uma transgressão desesperada: peixe e tubérculos carbonizados roubados de uma fogueira não vigiada. Bastante comum. Surpresa quando a esperada consequência violenta não se materializava. Em vez disso, cabeça baixa e ducto ocular lacrimoso sinalizando sincero remorso. Em outra ocasião, um conglomerado de matéria escura e indiferença inclinava a cabeça para o lado. Curiosidade, enquanto cinco dedos ofereciam perdão, e outros cinco, alimento de sobra.
Em algum momento, um osso se quebrou. Muito comum. Consequência esperada de abandono, isolamento, medo, morte. Mas surpresa, novamente. Os primatas reuniam os enfermos, cuidando deles o suficiente para que os osteoblastos executassem sua programação. Calcificação, força restaurada. Duas pernas corriam com mais vinte. Algo havia mudado. Em outra ocasião, matéria escura e curiosidade se aproximavam para observar.
Certo verão, os primatas teorizaram que uma safra poderia ser mais farta e nutritiva se plantassem sementes de espécimes que produziram um resultado particularmente desejável no passado. Engenhosidade inesperada. Tudo o que tocavam, buscavam otimizar. Em outra ocasião, matéria escura e orgulho sorriam.
Olhos fitavam o quadrúpede felpudo e viam amizade em vez de obediência. Na primeira vez que a mão se estendeu para afagar as macias orelhas caídas, a matéria escura sentiu uma ternura incomensurável.
Eles emitiam sons com a boca simplesmente porque os ruídos faziam os outros rirem. Abraçavam-se para processar emoções que seus corpos pequenos e frágeis não suportavam sentir sozinhos. Comemoravam cada vez que um dos seus vivia para ver outra órbita.
Eles, os filhos da Terra. Eles, os filhos da minha Terra. Criavam, ponderavam, exploravam e brincavam justamente porque podiam. E eu, a matéria escura, observava-os com fascínio.